O homem que não podia chorar
Eu vos contarei um conto
que talvez nunca ouviram falar
algo complicado a tal ponto
de eu não saber como explicar
há muito tempo atrás
em uma distante cidade
existia um bom rapaz
no fim de sua mocidade
nada parecia dar certo
até que um dia encontrou
o desenrolar de um futuro incerto
e ele então se casou
casados estavam eles
casados estavam: João e maria
vivendo juntos sempre
em total e constante harmonia
foi então que numa noite fria
se despertou um sonho esquecido
joão se voltou para maria
“precisamos, então, ter um filho”
Após muitas tentativas
se soube da novidade
numa alta voz chamativa
maria a espalhou pra cidade
festas e muita alegria
tudo parecia ser novo
há muito tempo ninguém nascia
naquela pequena casca de ovo
e foi uma gravidez normal
com chutes, contrações e desejos
berço colorido, peças em espiral
boa noite pra maria, na barriga um beijo
tudo era alegria
até o dia do parto
após a sua saída
se fez um silêncio no quarto
“É espantoso!” disse o médico
nunca fiz um parto assim
“não é um problema estético.”
“mas a criança não chorou pra mim.”
logo todos já sabiam
do que ninguém esperava
concebido ela havia
um menino que não chorava
o pequenino era bonito
cinco dedinhos em sua mão
mas como pudera ter sido feito
tal bizarra imperfeição?
Surdo não poderia estar
se faziam barulho, ele olhava
mas ninguém fazia chorar
o menino que não chorava
ao ser entregue na maternidade
os outros pequenos num coro
gritavam de desespero
um por um começava um choro
não poderiam deixar tal algazarra
acontecer por causa de um só menino
o colocaram dentro de um sala
para ficar completamente sozinho
pobrezinho com fome está
há muito não mamava
nem isso fez chorar
o menino que não chorava
na saída do hospital
estavam todos lá para ver
saiu notícia no jornal
deu manchete na T.V
todo um mutirão que queria dar uma olhada
palhaços e velhos fantasiados estavam lá
todos queriam o menino que não chorava
só para tentar faze-lo chorar
chegando em casa João e Maria
encontraram ilhas em suas mobílias
a casa cercada por sensacionalistas
os fizeram rir pela janela com a vista
e assim foi por algum tempo
até a mídia ir para longe
e pensaram ”tiraremos proveito”
do menino não chorar a noite
mas certa fez deu errado
João viu seu filho caído no chão
quando ele entrou no quarto
como se tendo tendo uma convulsão
acontece que estava com fome o pequenino
o pobrezinho tentava então andar
acontece que mesmo faminto
nada o fazia chorar
quando na escola, ele perdeu a identidade
bastava chegar e a chacota começava
já que era conhecido por toda a cidade
como o tal garoto que não chorava
durante a adolescência não tinha amigos
mas nunca precisou certamente
já que boa parte dos perigos
estavam na própria mente
ele caia, se sujava e se machucava
assim como os outros que haviam lá
mas depois de um tempo até ele achava
que nada o faria chorar
se meteu em brigas e discussões
e disso tirava vantagem
a qualquer momento poderia estar triste
e desse ponto começar uma chantagem
a cada dia que se passava
aumentava a quantidade de defuntos
e quando João e Maria morreram
a alma do garoto foi junto
as árvores se despiram
música alguma pássaro algum cantara
de luto, todos choravam
pelo garoto que não chorava
e no velório de seus pais
começou a se perguntar
“como poderei eu um dia ter paz
“se nem ao menos aprendi a chorar?”
pobre rapaz, sem mãe, sem pai
incerto sobre si mesmo estava
num abismo sua sanidade se vai
louco ficara o homem que não chorava
dentre seus dentes trincavam um ódio
que há tanto havia escondido
um desejo deveras mórbido
que o havia corrompido
pobre garoto sem paz
agora que tinha herdado insanidade
pensou que seria então capaz
de sair daquela maldita cidade
arrumando as malas com um sorriso
o garoto se foi sem despedida
deixando apenas um riso
de sua falsa alegria
“nova vida, esquecerei meus pesares”
pensou o garoto quando ali chegara
acontece que em todos os lugares
ele via seus vizinhos quando olhava
“que eterna maldição!”
“saí de um esgoto para uma vala”
pensou o garoto, sentando-se no chão
mas aquilo não parecia que o abalava
mesmo inquieto e agoniado
ele não aparentava estar
pois situação alguma faria
o homem que não chora chorar
o tempo passou vagarosamente
e por acidente ele se apaixona
e passa a viver vergonhosamente
como um palhaço escondendo-se na lona
“precisamos de um tempo”
disse sua esposa olhado-o com olhos de facão
sabia ele que a cretina não voltaria
levando com ela seu coração
e mesmo assim não chorava
por varias vezes se machucou
umas propositalmente
mas nunca, nunca chorou
e assim viveu o pobre homem
até se tornar um pobre idoso
um velho calado, mal vestido
mal encarado e rancoroso
não comia, não bebia, mal respirava
não ria, não queria, não chorava
não pensava, não se irritava, não sentia
não cantava, não gritava nem existia
até que um dia, o melhor aconteceu
o pobre velho que não chorava morreu
as arvores se encheram de flores
dentre elas os melhores odores
os pássaros cantavam belas sinfonias
a grama verde claro no sol reluzia
todos de preto numa falsa comunhão
enquanto o dia se esvaia das palmas de suas mãos
o vento não cessou
o grito não calou
folha alguma caiu
lágrima nenhuma saiu
todos voltaram para suas casas
sem fotos, sem lembranças
estava da mesma forma a vizinhança
se recolheram e esconderam suas asas
ninguém lembraria dele
mudança alguma ele deixou
e no enterro do homem que não chorava
nenhuma cria de deus chorou.
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